Segundo o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a espondiloartrite axial é uma das condições reumáticas mais frequentemente subdiagnosticadas na terceira idade, não porque seja rara, mas porque seus sintomas são facilmente confundidos com as lombalgias mecânicas comuns que afetam a maioria dos idosos em algum momento da vida. O idoso que acorda de madrugada com dor nas costas que melhora com o movimento e piora com o repouso prolongado frequentemente aguarda anos por um diagnóstico que poderia ter mudado completamente sua trajetória clínica se feito mais cedo.
Neste guia, abordaremos o que é a espondiloartrite axial, como ela se diferencia da dor lombar comum e o que pode ser feito quando finalmente é identificada.
O que é a espondiloartrite axial e como ela compromete a coluna?
A espondiloartrite axial é uma doença inflamatória crônica que afeta primariamente as articulações da coluna vertebral e as articulações sacroilíacas, aquelas que conectam a coluna ao osso do quadril. Diferentemente da artrose, que resulta do desgaste mecânico progressivo da cartilagem articular, a espondiloartrite é uma condição autoimune em que o sistema imunológico ataca as estruturas articulares e os tendões que se inserem nos ossos, produzindo inflamação que, ao longo de anos, pode levar à fusão progressiva das vértebras e à perda da mobilidade da coluna.
Yuri Silva Portela esclarece que a espondiloartrite axial existe em duas formas principais: a espondilite anquilosante, em que as alterações estruturais já são visíveis nas radiografias, e a espondiloartrite axial não radiográfica, em que a inflamação está presente e produz sintomas, mas ainda não produziu dano estrutural detectável pelos métodos convencionais de imagem. Essa segunda forma é frequentemente mais difícil de diagnosticar e mais comum em mulheres, que historicamente foram subdiagnosticadas nessa condição.
Como a dor da espondiloartrite difere da dor lombar comum?
A distinção entre a dor lombar inflamatória da espondiloartrite e a dor lombar mecânica comum é o elemento clínico mais importante para o diagnóstico precoce, e é também a distinção que mais frequentemente passa despercebida na avaliação do idoso com dor nas costas. A dor mecânica, causada por artrose, hérnia de disco ou tensão muscular, tipicamente piora com o movimento e melhora com o repouso. A dor inflamatória da espondiloartrite faz o oposto: piora com o repouso prolongado, especialmente durante a madrugada e nas primeiras horas da manhã, e melhora com o movimento e com a atividade física.

Na concepção de Yuri Silva Portela, o idoso que acorda entre duas e quatro da manhã com dor lombar intensa que o obriga a levantar e caminhar para obter alívio, e que melhora progressivamente ao longo do dia com a atividade, está apresentando um padrão de dor inflamatória que justifica investigação reumatológica específica antes de ser tratado indefinidamente como lombalgia mecânica. Além disso, a rigidez matinal que persiste por mais de 30 minutos é outro marcador diferencial importante que frequentemente está presente na espondiloartrite e ausente nas lombalgias mecânicas.
Diagnóstico e por que demora tanto no idoso
O diagnóstico da espondiloartrite axial no idoso é frequentemente retardado por múltiplos fatores que se sobrepõem. A alta prevalência de dor lombar por causas mecânicas na terceira idade cria um viés diagnóstico que torna o médico menos propenso a investigar causas inflamatórias. Além disso, a espondiloartrite não radiográfica não aparece nas radiografias convencionais, exame mais frequentemente solicitado na avaliação inicial de dor lombar. Somado a isso, os marcadores inflamatórios no sangue, como PCR e VHS, podem estar normais em até 50% dos casos de espondiloartrite axial, tornando a investigação laboratorial isolada insuficiente para excluir o diagnóstico.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, a ressonância magnética das articulações sacroilíacas é o exame com maior sensibilidade para identificar a inflamação característica da espondiloartrite axial antes que ela produza dano estrutural visível nas radiografias. Esse exame, quando solicitado com a hipótese diagnóstica correta, pode identificar a condição anos antes do que os métodos convencionais permitiriam, abrindo uma janela de intervenção precoce com impacto real sobre a progressão da doença.
Tratamento e o que o idoso pode esperar
O tratamento da espondiloartrite axial combina exercício físico regular, medicamentos anti-inflamatórios e, nos casos moderados a graves, agentes biológicos que bloqueiam especificamente as vias inflamatórias envolvidas na doença. O exercício físico tem papel central e não é uma recomendação genérica de saúde: ele é uma intervenção terapêutica específica que reduz a rigidez, preserva a mobilidade da coluna e retarda a progressão da doença de uma forma que o repouso, paradoxalmente, agrava.
Yuri Silva Portela sinaliza que o idoso com espondiloartrite axial bem tratada pode manter mobilidade, qualidade de vida e função por décadas após o diagnóstico. O que determina esse desfecho não é apenas a disponibilidade de tratamentos eficazes, mas a velocidade com que o diagnóstico é feito e a qualidade do acompanhamento que se segue. A dor noturna que acorda o idoso de madrugada não é apenas incômodo: é um sinal que merece ser ouvido antes que a coluna pague o preço do silêncio.