Governo dos Estados Unidos alerta que produzir conteúdo remunerado com visto de turista durante o Mundial pode configurar trabalho ilegal.
Com a Copa do Mundo se aproximando, criadores de conteúdo do mundo inteiro já se preparam para documentar cada detalhe do torneio, mas um alerta recente do governo americano pode mudar os planos de muita gente. As autoridades de imigração dos Estados Unidos avisaram que quem entrar no país com visto de turista não poderá usar a viagem para produzir conteúdo com o objetivo de gerar renda em plataformas como YouTube, TikTok, Facebook ou Instagram, prática que já é comum entre influenciadores de diversas nacionalidades. O aviso, divulgado pelo jornal espanhol El País e reproduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos, chega em um momento delicado, às vésperas de um dos maiores eventos esportivos do planeta, que deve atrair centenas de criadores de conteúdo ávidos por registrar a experiência para milhões de seguidores. Para quem acompanha o universo dos influenciadores, a dúvida que fica é simples: até onde vai a linha entre curtir a Copa como turista e trabalhar como criador de conteúdo dentro do território americano?
O que diz a nova regra e por que ela pegou influenciadores de surpresa
A mensagem enviada pelas autoridades americanas é direta e não deixa muita margem para interpretação. Segundo declaração conjunta da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos e do Departamento de Segurança Interna, ter como único propósito da visita a criação de conteúdo como influenciador, gerando renda no país durante a estada, é considerado trabalho e exige o visto correspondente. A mesma nota acrescenta que quem entra pelo programa de visitantes e recebe renda de fonte americana estaria violando as condições do visto de admissão. Na prática, isso significa que gravar vídeos patrocinados, fechar parcerias com marcas ou monetizar conteúdo produzido durante a viagem pode ser enquadrado como atividade laboral, algo que o visto turístico simplesmente não permite.
O momento escolhido para o comunicado não é aleatório. O torneio deve movimentar 78 das 104 partidas em cidades dos Estados Unidos, como Los Angeles, Nova York, Miami, Dallas, Houston, Seattle, Atlanta e São Francisco, o que naturalmente atrai uma leva enorme de criadores de conteúdo interessados em cobrir o evento. O governo americano entrou em alerta máximo após a prisão de Khaby Lame, uma das maiores estrelas do TikTok, episódio que teria acendido um sinal amarelo sobre como a legislação de imigração se aplica a essa nova categoria de trabalhadores digitais. O caso reforça que autoridades americanas passaram a olhar com mais atenção para uma atividade que, até pouco tempo, parecia escapar do radar das regras tradicionais de vistos de trabalho.
As consequências práticas para quem vive de criar conteúdo
Para influenciadores que dependem de viagens internacionais para produzir parte relevante do seu conteúdo, o recado tem peso concreto. O visto de turista, conhecido como B-2, permite entrada nos Estados Unidos para lazer, férias, visitas familiares ou tratamento médico, mas proíbe expressamente o exercício de atividades remuneradas. O não cumprimento dessas condições pode resultar em cancelamento do visto, deportação e até restrições para futuras viagens ao país, consequências que vão muito além de uma simples multa e que podem comprometer a carreira de um criador que depende de deslocamentos frequentes para gerar conteúdo internacional.
Ainda assim, existe uma zona de interpretação que preocupa advogados especializados em imigração. Um advogado consultado pela reportagem original pondera que pode haver exceções, como o caso de um turista que grava um vídeo espontâneo, sem intenção comercial prévia, e o conteúdo acaba viralizando de forma orgânica. Nessa hipótese, a avaliação é de que não haveria violação da lei, já que a fama surgiu de forma não planejada e não como objetivo declarado da viagem. O problema, segundo o próprio especialista, é que a legislação de vistos foi pensada para um mundo do trabalho muito diferente do atual, e tentar encaixar a rotina de um criador de conteúdo dentro de categorias antigas nem sempre funciona sem gerar zonas cinzentas.
Como isso pode afetar a cobertura da Copa por criadores brasileiros
Para o público brasileiro que acompanha de perto influenciadores nacionais, o episódio levanta uma questão prática: quem planeja viajar aos Estados Unidos para cobrir a Copa precisa se informar com antecedência sobre o tipo de visto adequado à sua atividade. Isso vale tanto para criadores contratados por marcas para produzir conteúdo patrocinado durante o evento quanto para aqueles que pretendem monetizar vídeos publicados a partir da viagem, mesmo sem um contrato formal previamente fechado. A recomendação de especialistas em imigração é buscar orientação jurídica específica antes de embarcar, já que as regras podem ser interpretadas de forma diferente conforme o perfil de cada viajante e o tipo de conteúdo produzido.
O episódio também escancara um debate mais amplo, que é o de como legislações criadas décadas atrás conseguem, ou não, acompanhar a velocidade de transformação do mercado de criadores de conteúdo. Enquanto isso não se resolve, a orientação prática para influenciadores que sonham em cobrir a Copa do Mundo de 2026 é simples: entender exatamente qual categoria de visto se aplica à sua situação antes de fazer as malas, porque o custo de um erro nessa área pode significar não apenas o fim antecipado da viagem, mas restrições que afetam planos futuros de trabalho nos Estados Unidos.
Fonte consultada: Instituto Humanitas Unisinos (reprodução de reportagem do El País), disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/667056-os-estados-unidos-alertam-influenciadores-estrangeiros-antes-da-copa-do-mundo-e-ilegal-criar-conteudo-com-visto-de-turista