Quinze creators com alcance conjunto de 45 milhões de pessoas participaram de uma imersão sobre urnas, segurança e desinformação.
A relação entre influenciadores digitais e eleições ganhou um novo capítulo nesta semana, e ele pode alterar a responsabilidade de quem publica conteúdo político nas redes. Em 25 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu 15 criadores de conteúdo que, juntos, alcançam cerca de 45 milhões de pessoas, em uma ação voltada à segurança e à auditabilidade das urnas eletrônicas. O encontro integra a iniciativa “Confirm@: 30 anos de urna eletrônica”, promovida pela Redes Cordiais em parceria com o TSE, com apoio do YouTube e do TikTok. O movimento mostra que a Justiça Eleitoral não está olhando apenas para os meios tradicionais de comunicação para enfrentar a desinformação. Está também tentando conversar diretamente com quem já possui comunidades digitais consolidadas e consegue traduzir assuntos técnicos para milhões de seguidores. Para creators, isso levanta uma questão cada vez mais importante: até onde vai a liberdade de opinião e onde começa a responsabilidade de informar corretamente?
Por que o TSE decidiu aproximar influenciadores das eleições?
A estratégia do TSE parte de uma transformação no comportamento do público brasileiro. Uma parcela significativa da população já acompanha assuntos políticos por vídeos curtos, podcasts, transmissões ao vivo e publicações de creators, muitas vezes recebendo explicações sobre temas complexos em formatos mais simples do que aqueles utilizados pelas instituições públicas. O tribunal reconheceu justamente essa capacidade de comunicação ao reunir 15 influenciadores que, somados, alcançam aproximadamente 45 milhões de pessoas. Durante a programação, os criadores conheceram mais de perto a urna eletrônica, conversaram com o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, e participaram de atividades relacionadas à segurança, fiscalização e desinformação eleitoral.
O objetivo não é transformar os influenciadores em porta-vozes oficiais da Justiça Eleitoral, mas criar uma ponte entre especialistas, instituições e comunidades digitais. O próprio TSE afirmou que pretende aproximar a sociedade de informações sobre o sistema de votação e facilitar a circulação de conteúdos confiáveis em diferentes nichos da internet. A iniciativa também envolve YouTube e TikTok, plataformas que têm papel central na distribuição de vídeos e na descoberta de informações por públicos jovens. A estratégia é especialmente relevante porque informações sobre urnas e eleições podem ser difíceis de explicar em linguagem técnica, enquanto creators conseguem adaptar conceitos para seu estilo de comunicação. Ao mesmo tempo, essa adaptação exige cuidado para que simplificar não signifique distorcer, exagerar ou eliminar contextos importantes.
A presença de criadores com comunidades diferentes também mostra que influência digital não é mais sinônimo apenas de entretenimento. O grupo recebeu nomes ligados a comportamento, cultura, política, educação e outros nichos, justamente para alcançar públicos que consomem informação de maneiras variadas. O caso de Maria Helena, do perfil Maria Helena e Tarcísio, citado pelo TSE, ilustra como a linguagem de cada creator pode ajudar a conversar com grupos específicos, inclusive pessoas mais velhas que recebem correntes de desinformação em aplicativos e redes. Para o mercado de influência, o episódio reforça uma tendência: a capacidade de explicar assuntos relevantes e construir confiança pode se tornar tão importante quanto o volume bruto de seguidores.
O que essa aproximação muda para influenciadores e marcas?
Para os creators, a principal mudança é a percepção de que conteúdos de interesse público carregam uma responsabilidade maior. Quando um influenciador fala sobre entretenimento, uma informação equivocada pode gerar críticas ou perda de credibilidade; quando fala sobre eleições, uma informação falsa pode influenciar decisões de milhares ou milhões de pessoas. Isso não significa que o creator precise abandonar opiniões pessoais ou adotar uma postura neutra em todas as situações. Significa que fatos, números, acusações e afirmações verificáveis precisam ser diferenciados claramente de opiniões e interpretações. A aproximação do TSE com influenciadores mostra que o alcance digital passou a ser considerado uma ferramenta importante no debate eleitoral, e isso aumenta o peso da responsabilidade editorial de quem utiliza esse alcance.
A questão também interessa diretamente às marcas que contratam creators durante períodos eleitorais. Empresas precisam avaliar não apenas o tamanho da audiência, mas também o contexto e o tipo de conteúdo produzido por cada parceiro, especialmente quando campanhas coincidem com assuntos politicamente sensíveis. O CONAR atualizou em 2026 seu Guia de Marketing e Publicidade por Influenciadores Digitais, incluindo orientações sobre transparência, apresentação verdadeira, proteção de crianças e adolescentes, inteligência artificial e governança. Embora as normas do CONAR tratem da publicidade, e não transformem todo conteúdo político em propaganda comercial, elas reforçam uma tendência mais ampla do mercado: transparência deixou de ser detalhe e passou a ser parte da estratégia de reputação.
Essa mudança pode alterar inclusive o perfil de creators procurados por empresas. O levantamento Pulso 2026/2027, realizado pela Deck em parceria com a Nexus, mostrou que influência está sendo avaliada cada vez mais por critérios como autoridade, reputação e capacidade de pautar decisões, e não apenas pelo número de seguidores. O estudo analisou mais de dois mil perfis em 21 setores e apontou que 65% dos nomes considerados mais influentes são especialistas ou referências técnicas. O dado ajuda a explicar por que o modelo de creator escolhido para uma campanha pode estar mudando: uma comunidade menor, mas altamente confiável e segmentada, pode ter relevância estratégica maior do que um perfil gigantesco sem conexão clara com o assunto abordado.
Como os creators devem se preparar para uma eleição dominada pelas redes?
A primeira providência é estabelecer uma rotina de checagem antes da publicação de conteúdos políticos. O creator pode consultar diretamente o TSE, tribunais regionais eleitorais, legislação eleitoral e documentos oficiais antes de reproduzir afirmações sobre urnas, candidaturas, pesquisas, regras de votação ou decisões da Justiça Eleitoral. É particularmente importante conferir vídeos virais antes de republicá-los, porque cortes fora de contexto e legendas enganosas podem transformar uma fala verdadeira em uma narrativa completamente diferente. A participação de influenciadores na iniciativa do TSE justamente reforça que informação eleitoral precisa chegar às redes em uma linguagem acessível sem perder precisão.
Outra preparação importante é separar conteúdos editoriais de conteúdos patrocinados. Durante o período eleitoral, creators podem ser procurados por partidos, empresas, organizações ou outros grupos interessados em ampliar determinadas mensagens, e essa situação exige avaliação cuidadosa das regras aplicáveis a cada caso. A identificação correta da publicidade continua sendo uma obrigação importante em campanhas comerciais, enquanto conteúdos políticos possuem regras eleitorais próprias e devem ser analisados conforme o contexto. O Guia do CONAR atualizado em junho de 2026 dedica atenção específica à transparência da publicidade feita por influenciadores e aos cuidados em conteúdos digitais. Para o creator, manter contratos, briefings, registros de alterações e histórico de publicações organizados também pode facilitar a comprovação de como determinada mensagem foi produzida.
A outra grande frente é a inteligência artificial. Deepfakes, clonagem de voz e vídeos sintéticos podem tornar muito mais difícil para o público saber se uma fala ou cena é autêntica, e o risco aumenta em campanhas eleitorais marcadas por forte circulação de conteúdo audiovisual. As regras eleitorais de 2026 já incorporam exigências e restrições relacionadas ao uso de conteúdo sintético, enquanto plataformas e autoridades desenvolvem estratégias para reduzir a circulação de material enganoso. O creator que receber um vídeo político impactante deve, portanto, resistir à pressão de publicar primeiro apenas porque o conteúdo tem potencial de viralizar. A velocidade pode gerar audiência, mas um erro factual ou um material manipulado pode comprometer a reputação construída durante anos.
A iniciativa do TSE com influenciadores mostra que a disputa pela informação eleitoral já acontece em um ambiente no qual creators têm poder de alcance comparável ao de grandes veículos em determinados nichos. Os 15 participantes reunidos nesta semana somam cerca de 45 milhões de seguidores, um público que nenhuma instituição consegue ignorar. Para quem cria conteúdo, o cenário traz oportunidades, mas também aumenta a responsabilidade: explicar melhor, checar antes de publicar e deixar claro quando uma afirmação é opinião são práticas que protegem tanto o público quanto o próprio creator. Para marcas, a tendência é escolher parceiros pela combinação de confiança, autoridade e afinidade com a comunidade. Nas eleições de 2026, influência não será apenas capacidade de viralizar; será também capacidade de informar sem transformar alcance em desinformação.