Um levantamento do Instituto Nacional de Câncer revelou um dado que dificilmente aparece nas discussões públicas sobre rastreamento: cerca de 60% das mamografias apresentadas por pacientes da rede pública tiveram que ser refeitas por problemas de qualidade técnica, e não por qualquer alteração encontrada no exame. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues explica que esses problemas costumam ser bem mais simples do que se imagina, envolvendo desde sujeira no equipamento e impressões digitais na imagem até revelações malfeitas e uso inadequado da técnica de compressão.
Esse tipo de falha técnica pode parecer um detalhe menor diante da complexidade médica do câncer de mama, mas seu impacto prático é sério: uma imagem de má qualidade pode esconder justamente a lesão que o exame deveria revelar, levando tanto a diagnósticos tardios quanto à repetição desnecessária de exposição à radiação. Entender como funciona o controle de qualidade dos equipamentos de mamografia, e por que ele é tão determinante quanto a própria interpretação do radiologista, ajuda a explicar uma camada pouco discutida da qualidade dos programas de rastreamento no Brasil.
O que exatamente é verificado em um programa de controle de qualidade de mamógrafo?
Desde 1998, quando o Ministério da Saúde publicou a Portaria 453, os serviços de mamografia no Brasil passaram a ser formalmente responsáveis por testes periódicos que avaliam desde o alinhamento entre o campo de raios X e o receptor de imagem até a força de compressão aplicada durante o exame, passando pela qualidade da imagem obtida com um simulador específico da mama, chamado phantom. Cada um desses parâmetros, isoladamente, pode parecer um detalhe técnico irrelevante, mas juntos determinam se a imagem final tem resolução suficiente para revelar uma microcalcificação de poucos milímetros.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esses testes deveriam ser realizados mensalmente por profissional treinado, com relatório disponível para inspeção das autoridades sanitárias sempre que solicitado. Para ele, negligenciar essa rotina de verificação é comprometer, na origem, toda a cadeia de qualidade que vem depois, já que nenhuma interpretação radiológica, por mais experiente que seja o profissional, consegue compensar totalmente uma imagem tecnicamente mal produzida.
Por que existe um selo de qualidade específico para serviços de mamografia no Brasil?
O Colégio Brasileiro de Radiologia mantém um programa de certificação voluntária que avalia o desempenho técnico dos equipamentos e emite um selo de qualidade para os serviços aprovados, permitindo que pacientes e médicos solicitantes identifiquem com mais segurança onde realizar o exame. Paralelamente, o próprio Ministério da Saúde instituiu, em 2012, o Programa Nacional de Qualidade em Mamografia, fruto de um projeto-piloto que avaliou dezenas de serviços do SUS em diferentes estados e identificou a necessidade de expandir esse controle para todo o território nacional.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, a existência desses dois mecanismos, um de certificação voluntária e outro de política pública nacional, mostra que o problema já é conhecido e enfrentado institucionalmente, mas sua efetividade ainda depende de fiscalização constante, já que a adesão a esses programas nem sempre é obrigatória em todo o país.
Por que um equipamento tecnologicamente avançado ainda pode gerar imagem de má qualidade?
Mesmo os aparelhos digitais mais modernos dependem de calibração periódica para manter seu desempenho dentro dos parâmetros esperados, já que componentes eletrônicos e mecânicos se desgastam naturalmente com o uso contínuo ao longo dos anos. Um mamógrafo sem manutenção adequada pode gerar imagens com contraste inadequado ou resolução insuficiente, mesmo sendo, na origem, um equipamento de última geração, o que reforça que tecnologia sozinha não garante qualidade sem rotina de verificação constante.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, esse dado deveria mudar a forma como se avalia investimento em radiologia dentro do sistema público: comprar equipamento novo resolve apenas parte do problema, se não vier acompanhado de orçamento contínuo destinado à manutenção e ao controle de qualidade recorrente ao longo de toda a vida útil do aparelho. Ele reforça que essa visão de longo prazo costuma ser negligenciada em decisões orçamentárias que priorizam a aquisição inicial em detrimento da manutenção futura.
O que uma paciente pode perguntar para saber se está diante de um serviço confiável?
Perguntar diretamente se o serviço possui certificação do Colégio Brasileiro de Radiologia, ou se participa do Programa Nacional de Qualidade em Mamografia, é uma forma simples e direta de obter alguma garantia sobre o padrão técnico do equipamento utilizado. Embora a maioria das pacientes nunca tenha considerado essa pergunta antes de agendar o exame, ela representa um filtro relativamente acessível diante de um problema que, segundo os próprios dados do INCA, afeta a maioria das mamografias realizadas na rede pública.
Nesse sentido, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que qualidade de rastreamento não se resume à interpretação humana do radiologista, mas começa muito antes, na própria produção técnica da imagem que será interpretada. Para ele, investir em controle de qualidade de equipamento deveria receber a mesma prioridade destinada à formação de profissionais e à ampliação de cobertura populacional, já que os três elementos juntos, e não isoladamente, determinam o real impacto de um programa de rastreamento.
Descobrir que mais da metade das mamografias da rede pública precisa ser refeita por problemas evitáveis de qualidade técnica mostra que ampliar cobertura, sozinho, não garante prevenção eficaz. Sem controle de qualidade constante do próprio equipamento, mesmo o exame certo, feito na idade certa, pode simplesmente não entregar a informação que deveria proteger a paciente.