Com crescimento mais lento e foco em resultados, o setor de criação de conteúdo passa por uma reestruturação que vai definir quem de fato vive dessa profissão
Durante anos, a narrativa em torno dos influenciadores digitais brasileiros foi de expansão acelerada. Entre 2024 e 2025, o número de criadores de conteúdo ativos no país cresceu cerca de 8%, chegando à marca de 2,1 milhões de influenciadores digitais ativos, segundo levantamento da Influency.me Studio (Jornal do Brás). O ritmo é bem mais moderado do que o período anterior, quando o mercado havia crescido 67% entre 2023 e 2024 (Influency.me). Esse número continua expressivo, mas a desaceleração é, segundo o CEO da Influency.me, Rodrigo Azevedo, um processo natural de amadurecimento do setor: o mercado saiu da fase de expansão e entrou em uma fase de consolidação (Jornal do Brás).
O que muda na prática? A resposta está na demanda das marcas. Empresas que antes apostavam em alcance bruto, escolhendo influenciadores com muitos seguidores independentemente do engajamento real, agora pedem dados, ROI e coerência de valores. Quem não consegue demonstrar resultados concretos, mesmo com uma audiência considerável, fica de fora dos contratos mais relevantes. Esse filtro está redesenhando o mapa dos criadores que de fato conseguem viver exclusivamente da produção de conteúdo no Brasil.
O que está mudando no mercado de influência brasileiro
A principal mudança em curso é a valorização do nicho sobre o alcance. Enquanto perfis generalistas com audiências grandes tentam agradar a todo mundo, microinfluenciadores com públicos menores mas muito específicos geram taxas de engajamento e conversão muito superiores. Segundo a Influency.me, os perfis menores que possuem comunidades fiéis e engajamento real se tornaram protagonistas para 2026, já que asseguram autenticidade e entregam resultados mais consistentes, o que fortalece a conexão entre marcas e públicos (Acontecendo Aqui).
Outro movimento significativo é a integração entre entretenimento e comércio, o chamado social commerce. Criadores que antes apenas apresentavam produtos passaram a conduzir vendas diretamente nas plataformas, usando links integrados, marcação de produtos em vídeos e transmissões ao vivo com recursos de compra em tempo real. No Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 102 vezes no volume bruto de mercadorias diário em seu primeiro ano de operação, comparando maio de 2025 com maio de 2026, com mais de 57% dos compradores afirmando ter descoberto o produto diretamente na plataforma (E-commerce Planet). Para as marcas, a vantagem é clara: o formato encurta o caminho entre a recomendação e a compra.
A inteligência artificial também entrou nesse ecossistema de forma concreta. Ferramentas de IA estão sendo usadas para análise de performance, identificação de influenciadores com perfil compatível com determinadas campanhas, geração de roteiros e até criação de avatares digitais que funcionam como influenciadores virtuais. A Dry Telecom destacou o caso da LunaTech, influenciadora virtual especializada em tecnologia criada inteiramente por inteligência artificial, que ganhou audiência expressiva no Brasil ao publicar análises de gadgets, tutoriais de programação e debates sobre o futuro da IA (Dry Telecom), embora o debate sobre transparência e ética nesse tipo de conteúdo ainda esteja em aberto.
Como os criadores de conteúdo podem se posicionar nesse novo momento do mercado
Para quem está começando ou quer crescer como influenciador em 2026, o caminho indicado pelos especialistas passa por algumas práticas concretas. A primeira é definir um posicionamento de nicho claro, em vez de tentar cobrir muitos assuntos ao mesmo tempo. Segundo a Dry Telecom, essa é a primeira lição dos casos de sucesso recentes: o nicho se tornou o novo mainstream, e a profundidade da conexão com um grupo menor e mais engajado se mostrou mais valiosa do que a amplitude de um público genérico e desinteressado (Dry Telecom).
A segunda prática é tratar as métricas como ferramenta de decisão, não apenas como indicador de ego. Saber qual tipo de conteúdo gera mais comentários, qual horário de postagem maximiza o alcance orgânico e qual formato retém o público por mais tempo são informações disponíveis nas próprias plataformas e que fazem diferença na estratégia editorial. Criadores que entendem esses dados tomam decisões melhores sobre onde investir tempo e energia.
Por último, a autenticidade se consolidou como valor de diferenciação em um ambiente saturado de conteúdo editado e estudado. Segundo análise da plataforma Air, em 2026 a era da perfeição digital está chegando ao fim: o público amadureceu, aprendeu a identificar o que é artificial e passou a valorizar o espontâneo, o sincero e o humano, preferindo criadores que mostram bastidores, vulnerabilidades e experiências verdadeiras a perfis que mantêm uma imagem idealizada e distante (Air). Isso não significa que qualidade de produção não importa. Significa que a conexão emocional entre criador e audiência vale mais do que qualquer filtro ou iluminação perfeita. Quem entender isso antes da maioria tem vantagem real nesse mercado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez