Paulo Roberto Gomes Fernandes ressalta que o debate sobre conteúdo local voltou ao centro das atenções em março de 2014, após declarações da então presidente da Petrobrás indicarem que nenhuma contratação deveria comprometer a curva de produção da companhia. A fala gerou forte repercussão entre empresários, entidades setoriais e representantes dos trabalhadores, reabrindo uma discussão que já atravessava mais de uma década de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da indústria nacional de óleo e gás.
A política de conteúdo local, em vigor desde os anos 2000, surgiu como instrumento de indução ao desenvolvimento industrial, à geração de empregos e à internalização de conhecimento tecnológico. Com o avanço dos grandes projetos e o aumento das exigências de prazos, custos e desempenho, porém, passaram a emergir tensões entre os objetivos industriais e as necessidades operacionais da estatal.
Críticas à aplicação prática da política
Do ponto de vista da indústria de máquinas e equipamentos, o principal problema não residia no conceito do conteúdo local, mas na forma como ele vinha sendo operacionalizado. Para o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, havia um descompasso evidente entre os números divulgados e a realidade das encomendas. Segundo ele, menos de 10% dos equipamentos adquiridos pela Petrobrás eram efetivamente nacionais.
Segundo Paulo Roberto Gomes Fernandes, esse cenário teria resultado em perda de espaço para fornecedores locais, queda na carteira de encomendas e redução da participação do setor de óleo e gás no faturamento da indústria de máquinas, hoje inferior ao registrado uma década antes. Refinarias como a Rnest e projetos como o Comperj ilustravam essa tendência, com baixos índices de nacionalização de equipamentos.
Conteúdo local como política compartilhada
Na avaliação de Paulo Roberto Gomes Fernandes, presidente da Liderroll, o conteúdo local não poderia ser tratado como responsabilidade exclusiva da Petrobrás. Para ele, a política só se sustentaria se combinasse exigência técnica, competitividade e comprometimento real da indústria nacional. A estatal, por sua vez, precisaria equilibrar seu papel indutor com a necessidade de cumprir metas de produção, governança e retorno aos acionistas.

Paulo Roberto Gomes Fernandes destacou também que parte do empresariado respondeu aos incentivos investindo em tecnologia, capacitação e inovação, mesmo diante de um ambiente tributário adverso. O problema surgiria quando empresas incapazes de atender aos requisitos técnicos passassem a depender de um modelo assistencialista, distorcendo os objetivos originais da política.
Engenharia, empregos e visão de longo prazo
Entidades de engenharia industrial reforçaram a importância de preservar o conteúdo local, especialmente na engenharia básica, etapa em que se definem equipamentos, especificações e soluções construtivas. Para o presidente da associação à época, o avanço obtido em capacitação técnica arriscaria ser desperdiçado caso houvesse uma inflexão abrupta na política.
Representantes dos trabalhadores enfatizaram o papel da Petrobrás como catalisadora do desenvolvimento nacional. De acordo com Paulo Roberto Gomes Fernandes, a preocupação central estava no impacto direto sobre o emprego, sobretudo em setores como o naval, que haviam passado por longo período de estagnação antes da retomada induzida pelo conteúdo local.
Pequenas e médias empresas no centro do problema
Para redes regionais de fornecedores, como a Rede Petro Leste Fluminense, o principal desafio estava na dificuldade de acesso das pequenas e médias empresas aos contratos. Exigências burocráticas, critérios financeiros rígidos e prazos de pagamento incompatíveis com o fôlego dessas companhias limitavam sua participação, mesmo após processos de qualificação técnica. Esse diagnóstico indicava que a política precisava de ajustes finos.
Por fim, o conjunto de posições apresentadas em 2014 revelava que o conteúdo local havia deixado de ser apenas uma diretriz industrial para se tornar um tema estrutural, envolvendo competitividade, emprego, engenharia e soberania produtiva. Paulo Roberto Gomes Fernandes conclui que, vista a partir de 2026, aquela controvérsia antecipa dilemas que continuam presentes: como fortalecer a indústria nacional sem comprometer eficiência, prazos e desempenho em um setor cada vez mais competitivo e globalizado.
Autor: Mikesh Wys
